O CAPIM TIFTON 85

Felipe Tonato
Zootecnista, Mestrando em Ciência Animal e Pastagens, ESALQ, USP
Carlos G.S. Pedreira, Ph.D.
Eng. Agr., Prof. Doutor, Depto. de Zootecnia, ESALQ, USP


Nos últimos anos, tem havido um renovado interesse por parte dos produtores brasileiros por gramíneas do gênero Cynodon, ocorrendo a introdução de diversos novos cultivares em nosso país. O gênero Cynodon é composto de gramíneas tropicais e sub-tropicais originárias dos continentes africano e asiático, com centros de origem na porção leste da África Tropical (Quênia, Uganda e Tanzânia), África Ocidental (Angola) e sul da Ásia e ilhas do Pacífico Sul. São plantas pertencentes à tribo Chlorideae, sendo subdivididas em oito espécies em função de sua distribuição geográfica. Uma outra subdivisão proposta é a de grupos dentro de gênero, denominado-se de gramas bermuda (C. dactylon) as plantas que apresentam rizomas (caules subterrâneos), e de gramas estrela (C. nlemfuënsis e C. plectostachyus) as plantas mais robustas e não rizomatosas.

Este gênero apresenta uma grande capacidade de adaptação a diferentes ambientes, vegetando entre os paralelos 35°N a 35°S, e em diversas condições de solo e clima, sendo classificada por alguns especialistas como "uma invasora onipresente e cosmopolita".

Até o lançamento de 'Coastal' o primeiro cultivar melhorado em 1943 pelo Dr. Glenn Burton do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA-ARS) as plantas do gênero Cynodon eram consideradas unicamente como plantas invasoras de culturas, configurando-se em um grande problema à agricultura, a exemplo da grama-seda (Cynodon dactylon) em nosso país. No entanto, o lançamento de 'Coastal' representou uma revolução no enfoque dado às plantas do gênero, transformando-as de invasora em forrageiras de grande potencial, sendo a partir de então seguido pelo lançamento de diversos outros cultivares advindos dos programas de melhoramento da Universidade da Geórgia e da Universidade da Florida.

Dentre estes novos cultivares, diversos como Florico, Florona, Florakirk, Jiggs, Russell, Cheyene, Tifton 68, Tifton 78 e Tifton 85 foram recentemente introduzidos em nosso país, tendo este último recebido um maior destaque, possivelmente em função da grande repercussão obtida em seu país de origem.

Este cultivar, um Cynodon spp. é um dos últimos lançamentos do programa de melhoramento genético de plantas pertencentes a este gênero desenvolvido pelo professor Glenn W. Burton na Coastal Plain Experimente Station na cidade de Tifton, estado da Geórgia. É um híbrido F1 interespecífico resultante do cruzamento entre Tifton 68 (Cynodon nlemfuënsis) e PI 290884 (Cynodon dactylon), uma variedade advinda da África do Sul.

É classificada como sendo uma gramínea de ciclo fotossintético C4, sub-tropical, perene, que se caracteriza por apresentar um crescimento prostrado, ser estolonífera e rizomatosa (por isso agrupada como grama bermuda), apresentando colmos e folhas grossos de coloração verde bastante escura, estolões abundantes, verdes de tom arroxeado e rizomas grosso, mas em quantidade relativamente pequena. Sua inflorescência é pequena, e formada por cinco racemos digitados no ápice da ráquis, não produzindo sementes viáveis em função de ser um híbrido interespecífico (2n = 50).

As primeiras áreas deste cultivar foram implantadas no Brasil provavelmente em 1993. Os dados preliminares de pesquisa até aqui demonstram um grande potencial desta planta forrageira. O Tifton 85 concilia diversas características desejáveis a uma planta forrageira, tais como:

• alta produtividade, com produções anuais na faixa de 20 a 25 t de MS/ha;
• grande participação de folhas na massa total (ao redor de 20%);
• alta densidade populacional de perfilhos (em torno de 11.000/m²) garantindo uma grande ocupação do terreno e conferindo alta "plasticidade" no manejo;
• rápida formação do estande inicial da pastagem, em função do vigoroso crescimento dos rizomas e estolões, ocupando rapidamente o solo;
• grande presença de estolões e rizomas possibilitando uma vasta cobertura do solo, o que dificulta a ocorrência de erosões e o aparecimento de plantas invasoras;
• resistência ao frio (incluindo geadas) e tolerância ao fogo em função da presença dos rizomas;
• grande flexibilidade de uso, podendo ser empregado tanto para pastejo como para conservação de forragem nas mais diversas formas (feno, silagem ou pré-secado);
• baixa susceptibilidade a doenças e razoável tolerância à cigarrinha das pastagens;
• adaptação a variados tipos de solos (textura) e a uma grande diversidade de climas;
• alta capacidade de resposta a fertilizações;
• alto valor alimentício em função de apresentar elevados níveis nutricionais e uma boa digestibilidade (55 a 60%) em relação a outras forrageiras tropicais.


Parâmetros morfológicos e bromatológicos de Tifton 85 em duas idades de corte

Rebrota
(dias)
%
MS
Folhas
 
Caules
 
MS
%
%
MS
%
%
kg/ha/corte
PB
FDN
kg/ha/corte
PB
FDN
28
49,0
2256,40
16,2
76,8
2348,50
9,6
78,3
42
51,0
2395,11
13,0
82,0
2301,19
7,9
81,0
Fonte: Adaptado de Gomide (1996).

Parâmetros nutricionais e produtivos de Tifton 85 adubado com 200kg de N/ha em diferentes idades.

Rebrota (dias)
MS (t/ha)
PB (%)
FDN (%)
FDA (%)
14
2,85
16,3
73,6
37,2
28
4,60
14,2
80,8
40,0
42
4,69
10,3
80,0
42,1
56
9,18
8,6
85,6
44,2
70
9,71
8,6
80,7
45,2
Fonte: Adaptado de Gomide (1996).      


Produção e teores de proteína bruta de Tifton 85 em diferentes idades quando submetido a diversos níveis de adubação nitrogenada em duas épocas do ano.

Rebrota
(semanas)
Níveis de N (kg/ha /ano)
0
100
200
400
600
MS (t/ha)
PB (%)
MS (t/ha)
PB (%)
MS (t/ha)
PB (%)
MS (t/ha)
PB (%)
MS (t/ha)
PB (%)
 
Época das águas
2
1,9
7,3
3,9
9,0
6,5
10,1
8,7
12,8
10,4
17,6
4
5,0
7,8
7,8
9,6
9,9
10,9
12,9
13,3
14,3
16,8
6
6,3
6,9
8,3
9,0
10,7
9,8
14,6
12,2
17,8
14,6
Época das secas
2
0,7
7,0
1,5
8,8
2,4
8,5
2,5
9,7
3,3
12,8
4
1,0
7,8
2,5
8,6
4,2
11,0
5,3
13,6
5,8
15,8
6
1,6
7,3
3,2
9,3
4,0
11,2
5,8
11,4
5,3
13,5
Fonte: Adaptado de Alvim et al. (1997).

O Tifton 85 tem alta exigência em fertilidade do solo, não sendo recomendado para solos ácidos e pobres em nutrientes. Tem maior custo inicial de implantação em função da sua forma ser realizada apenas por mudas. Não difere muito de outras forrageiras quanto a sazonalidade de produção (76% concentra-se em seis meses do ano) limitando a sua utilização em determinadas épocas.

É resistente ao frio, inclusive a temperaturas abaixo de zero, porém não é produtiva em condições de baixa temperatura. A resistência ao frio é bastante desejável, pois se configura numa estratégia de proteção da planta contra os invernos rigorosos registrados em sua região de origem(EUA). A partir de uma determinada época do ano a planta passa a acumular nutrientes em suas estruturas subterrâneas (rizomas e raízes) em detrimento de expandir sua parte aérea. Este mecanismo preserva a planta que seria mais comprometida pelas baixas temperaturas com uma parte aérea maior e ainda viabiliza as reservas orgânicas responsáveis por uma rebrota vigorosa quando as condições climáticas são favoráveis.

Em nossas condições este padrão de comportamento já vem sendo explorado por alguns, que nos meses de inverno realizam o sobre-plantio de forrageiras ibernais (aveia, azevém e etc) para pastejo ou corte, possibilitando o aproveitamento integral destas áreas em todo o ano sem comprometer o estande de Tifton 85, que após a utilização das culturas anuais rebrota e retoma seu ciclo normal.

Estabelecimento:
Em função de ser um híbrido interespecífico, Tifton 85 não produz sementes viáveis, sendo sua disseminação feita exclusivamente por material vegetativo (mudas enraizadas, colmos, estolões ou rizomas).Assim sendo, é fundamental para um bom estabelecimento que se utilize material sadio originário de bancos de mudas ou produtores livres de doenças e invasoras e com um bom manejo, e mudas maduras (com aproximadamente 100 dias de desenvolvimento) já que a brotação inicial depende de reservas orgânicas só encontradas em quantidade adequada em plantas bem desenvolvidas.

A propagação vegetativa é mais arriscada. As mudas são um material mais delicado e por tanto mais susceptível desidratação do que as sementes. O estabelecimento inicial é mais lento, já que a densidade de plantas por área é menor do que a obtida em plantio com sementes. É também mais onerosa, pois a utilização de mudas acarreta em maior emprego de mão de obra (arranquio, carregamento e plantio manual), maior necessidade de transporte (carregamento do banco de mudas ou local de compra para o local de plantio) e conseqüentemente um menor rendimento diário do trabalho.

Em função destas desvantagens iniciais, as diversas etapas para a implantação de uma pastagem de Tifton 85 devem ser executadas cuidadosamente, da mesma forma com que se conduz a implantação de uma lavoura anual, para se obter sucesso na formação da pastagem. As recomendações básicas de implantação são basicamente:
• Implantação em época adequada (outubro a março), em que a temperatura e pluviosidade favorecem o estabelecimento e maximizam a competitividade da forrageira contra plantas invasoras;
• Correção da acidez do solo através de calagens, com base na análise prévia de amostras de terra, elevando a saturação de bases para 60%;
• Preparo convencional do solo com aração e gradeação, para um bom destorroamento e melhor contato das mudas com o solo, e para diminuir a presença de plantas invasoras;
• Adubação fosfatada no plantio, elevando-se os níveis de fósforo para 15 a 20 mg/dm³, aplicando-se 9 kg de P2O5 para cada 1 mg/dm³ que se quer elevar no solo;
• Adubação potássica no plantio, para que os níveis de potássio atinjam de 3 a 5% da CTC, aplicando-se 2,5 kg de K2O para cada 1mmol/ dm³ que se deseja elevar;
• Plantar a lanço ou em sulcos, abrindo covas ou sulcos de 5 a 10 cm de profundidade em solos mais estruturados (argilosos) ou de aproximadamente 15 cm em solos arenoso, espaçando-se as linhas de plantio em aproximadamente 50 a 60 cm;
• Depositar as mudas nos sulcos de forma que ¾ das mesmas sejam enterrados e ¼ fique na superfície;
• Proceder uma leve compactação com rolo compactador ou pisoteio após o cobrimento das mudas, visando aumentar o contato das gemas como solo;
• Utilizar de 4 a 5 toneladas de mudas por hectare em plantio a lanço e 3 toneladas em plantio em sulco;
• Realizar o plantio em solos férteis ou corrigidos livres de invasoras e que apresentem-se úmidos quando do plantio;
• Plantar as mudas o mais rápido possível após a sua colheita, evitando-se a desidratação das mesmas;
• Adubação de cobertura com 50 kg de N/ha, 40 a 50 dias após o plantio para estimular o desenvolvimento das mudas;
• Combater a presença de plantas daninhas com aplicação de 2,4 D (seguindo-se a recomendação do fabricante) se estas forem de folhas largas, ou no caso das braquiárias aplicando-se Fortex Ò (Diuron e MSMA) em área total na dose de 4 l/ha em solos arenosos ou 6 l/ha em solos argilosos no caso de grandes infestações, ou glifosato (segundo recomendação do fabricante) em jato dirigido para pequenas infestações;
• Realizar um primeiro pastejo leve 90 a 100 dias após o plantio.

Caso a área a ser formada com o Tifton 85 seja uma área previamente ocupada com plantas do gênero Brachiaria é recomendado que se realize ou a aplicação de herbicidas a base de Trifuralin (dose recomendada pelo fabricante) em pré-plantio e com incorporação (gradeação) ou herbicidas cujo principio seja o Diuron (dosagem de acordo com o fabricante) após o plantio e em pré emergência, garantindo um controle efetivo do banco de sementes de braquiárias e favorecendo o domínio da área e estabelecimento do Tifton 85.

Manejo:
As plantas do gênero Cynodon em geral são caracterizadas por apresentarem uma grande flexibilidade de manejo, sendo Tifton 85 considerado o mais flexível dentre todos os cultivares pertencentes ao gênero. Esta grande capacidade de adaptação a diversas condições de manejo (leniente ou intenso) é decorrente das diversas características associadas ao habito de crescimento prostrado da planta (estolonífero) e a uma grande plasticidade fenotípica (capacidade de alterar sua morfologia e fisiologia em função de mudanças no ambiente).

A combinação de características como a manutenção dos principais pontos de crescimento dos perfilhos (meristemas apical) e de uma parcelas de suas folhas próximos ao solo no decorrer de quase todo o ciclo de crescimento da planta (minimizando a possibilidade de eliminação destes pontos nos pastejos) associadas a uma alta densidade populacional de perfilhos, e a uma grande capacidade de gerar novos perfilhos após a desfolha, conferem a esta planta tolerância a pastejos drásticos.

Por outro lado, uma variação relativamente pequena na relação entre haste e folha no decorrer do ciclo de crescimento, uma menor elongação de haste e um menor acumulo de componentes estruturais (celulose, hemicelulose e lignina) nos estágios de crescimento mais avançados, são características indicativas de uma boa adaptação a pastejos menos intensos.

Em números, os trabalhos até então existentes em nossa literatura indicam uma faixa ideal de manutenção da altura de manejo de 10 a 15 cm para pastejo sob lotação contínua (2.500 a 5.000 kg de massa de forragem respectivamente), e de aproximadamente 30 cm de altura para a entrada dos animais e 10 cm de altura para a saída em manejo sob lotação intermitente (rotacionado) ou corte mecânico, o que seria obtido em intervalos de aproximadamente 3 a 5 semanas.

Em relação ao manejo da fertilidade do solo, a grande produtividade e alto valor nutricional apresentados por este cultivar já indicam a maior necessidade de reposição de nutrientes para a manutenção de sua condição produtiva, principalmente em explorações mais intensivas. Os dados até agora gerados indicam que os melhores resultados tem sido obtidos empregando-se doses de 200 a 300 kg de N/ha ano nessas condições.

A PLANO AGRADECE A COLABORAÇÃO DOS AUTORES QUE GENTILMENTE DISPONIBILIZARAM ESTE TRABALHO PARA EDIÇÃO NO SITE.


PLANO CONSULTORIA - AGOSTO DE 2003